Meu querido Afonso,
talvez aches que é uma estupidez eu estar a escrever para ti, desde hoje, Fevereiro de 2012, quando ainda nem sei como vão ser as coisas amanhã, mas tu és uma das certezas absolutas que eu tenho na minha vida, desde bastante nova. Talvez perguntes, porquê isto, porquê agora e porquê desta forma?
O facto, é que eu decidi escrever-te desde hoje, para que me possas conhecer como eu sou hoje e para que eu te possa aconselhar antes de ser tomada pelo quotidiano, pela inexorável corrida do tempo, pela idade, pelo cansaço, pela desilusão frente á nossa sociedade. E sobretudo para que tu me vejas, sem floreios, sem máscaras (porque eu sei que temos a tendência a achar que os nossos pais sempre foram de uma certa forma e parece estranho pensar que algum dia eles foram jovens e menos tolhidos pela mesmice do dia-a-dia) e principalmente, para que saibas que te amo, sempre amei e sempre vou amar. Porque amei desde a ideia de ti até à pessoa que és hoje e à pessoa que serás amanhã.
Sim, Afonso, escusas de pôr essa cara de descrente; amo-te tal como és, com todos os teus defeitos e qualidades. Sei que podes achar que és menos querido, que não és nada de especial mas isso não passam de ilusões e ideias pré-concebidas que tens metidas na cabeça. Eu sei que são ilusões e que não passam disso porque vê bem, eu fui assim, (e antes de mim o meu pai, o pai dele, e mãe do pai dele) e tu não poderias ser diferente porque és metade de mim e metade do teu pai numa combinação única que faz de ti um ser humano especial e irrepetível.
A ideia não é propriamente minha, uma amiga antes de mim fez o mesmo para a filha dela, eu já te contei sobre isso, lembras-te? Enfim, o ponto aqui é que eu preciso de escrever-te estas cartas, em parte porque tenho medo de me esquecer de quem fui, em parte porque tenho medo de não saber transmitir-te certas coisas de outra maneira. Convenhamos, meu querido, eu não sei outra maneira de me expressar melhor e as cartas dão um toque de verdade à coisa toda, porque não se consegue mentir totalmente quando se escreve, deixamos sempre transparecer alguma coisa de nós quando escrevemos. Pois é, é uma catarse.
Hoje tenho apenas uma lição importante a dar-te e um conselho (todas as verdades ouvirás e só uma tomarás). Não me lembro se alguma vez te contei sobre o porquê do teu nome ser este. Podes pensar que é só porque eu sou patriota e achei que devia dar-te o nome de quem fundou o nosso país e de quem nos deu a nossa língua, mas não é por isso, ou melhor, não é só por isso. O teu nome significa "pronto para o combate", deves achar que é feio o significado dele, ou no mínimo belicista mas não, não é nada disso.
Há muitos anos, fiz uma promessa no meio do desespero: se entrasse no curso de Medicina e tivesse um filho rapaz, ele seria chamado de Afonso, em honra a Deus por me ter ajudado a vencer a maior luta da minha vida (porque foi uma luta, entrar para o curso, foi uma luta acabá-lo e é uma luta constante exercê-lo) e com o desejo de que os meus filhos fossem capazes de lutar pelo que querem. Não te digo isto em tom de queixa, não penses nisso. Faço-o com orgulho.
A vida, para valer a pena, deve ser vista como uma luta incessante pela felicidade e só tirarás prazer dela se fores capaz de escolher a tua luta e se te debateres por ela até ao fim com dignidade, coragem e honestidade. Nem sempre vais ser vencedor, vão haver muitas derrotas, sei bem disso (e como sei) mas cada cicatriz na alma que cada batalha te der, deverá ser sempre motivo de orgulho, porque tens a consciência limpa e porque cada sucesso e cada fracasso trouxeram um ensinamento. "Põe quanto és no mínimo que fazes", porque é assim que as pessoas perduram, Afonso, porque imprimiram em quem as rodeou e naquilo fizeram a sua marca pessoal.
Nunca deixes de lutar Afonso, pelo direito a ser quem és, pelo direito que os outros têm de serem quem são, pela justiça, pela amizade, pela verdade mas sobretudo, pela tua felicidade. Meu amor, nunca cruzes os braços perante as adversidades, nunca vires as costas à oportunidade de ser feliz. É preciso dar cabeçadas para aprendermos a não cometer os mesmos erros, é preciso estar algumas vezes triste para poder compreender a importância da felicidade mas sempre, nunca te esqueças, nunca perdendo os valores e as crenças que fazem de ti quem és.
Luta, meu filho, que eu estarei sempre contigo, no teu coração, celebrando as tuas vitórias e consolando-te nas tuas derrotas. Nunca te esqueças que a maior alegria da minha vida é fazer de ti e dos teus irmãos Homens e Mulheres que nunca baixem a cabeça perante os problemas e que sempre saibam que são as nossas acções que nos definem enquanto seres humanos.
Todo o meu amor, sempre,
Mãe.